Entardecer no sertão, lua no alto, fogueira no chão, me encanta o vento descabelando o fogo, me encanta o fogo não oprimindo o vento, mais uma vez me encanta o vento, invadindo nosso peito, e como respeito, meu peito o abraça e alivio o alento.
Ah! Esse alento! Meu único alento! igual a esse não mais existirá, ainda que esse se repita mil noites seguidas.
Sinto nos olhos um apego, no cangote um cheiro, morena me vem visitar.
Sua saia rodada, cabelo de mola, não quero nem me conter...
Eis que me passam voando uma coruja branca, e ali, bem do lado de nós, pousa, e aguarda.
Se me faltasse algo, ainda que por um instante não conseguiria notar, quanta beleza me rodiava, quanta maravilha Deus criará, para mim e Ele ver.
E a morena, sempre tem um jeito de melhorar o que já está bom, e vai dançar em volta da fogueira e pede com os olhos que eu toque, apenas mais uma música.
Me vem a mente, sons e imagens de um velho amigo meu, que não podia ficar de fora de uma noite destas, sim, aquelas velhas cordas de aço, aquele casco timbrante, não! Não posso esquecê-lo!
- Vem a mim minha viola!
- Que meu peito aflora de tanta de alegria!
- Que a noite seja eterna até chegar o dia!
- Mas que vivamos o agora enquanto o tempo dure!
Minha morena se assenta próximo a mim, e seus olhas brilhavam tanto quanto o fogo incandescia. Não conseguia ver seu rosto, apenas sua alma, e via o fogo na sua alma o vermelho predominante do sertão, e o vento me levou pra dentro dela e ali nos fizemos um, e o vento soprava a viola, e a viola deixava ecoar os acordes e os acordes nos mostrava o caminho, para ser, sem ter que ser...
